A força de um sonho: Luciene Estevão é a primeira pedagoga do Quilombo São José da Serra

A força de um sonho: Luciene Estevão é a primeira pedagoga do Quilombo São José da Serra

A força de um sonho: Luciene Estevão é a primeira pedagoga do Quilombo São José da Serra

Publicado em: 08/07/2026

Entre caminhos percorridos a pé, despedidas dolorosas e desafios que testaram sua determinação, Luciene Estevão do Nascimento transformou cada obstáculo em motivo para seguir em frente. Filha do Quilombo São José da Serra, em Valença (RJ), enfrentou dificuldades de transporte, período de luto, adaptação às aulas remotas durante a pandemia e ao uso de tecnologias até então distantes de sua realidade. Mas a força que sustenta sua história e de sua comunidade a fez continuar. No próximo dia 11, ela participa da Colação de Grau em Pedagogia no Centro Universitário UNIFAA, concluindo uma trajetória construída com o apoio da família e de muitas pessoas. Agora, quer compartilhar conhecimentos e fortalecer a cultura quilombola. 

O sonho começou durante uma roda de conversa no quilombo, quando Rynaldo Santos, Coordenador do Núcleo de Educação Ambiental e Sustentabilidade da Fundação Educacional Dom André Arcoverde (FAA), mantenedora do centro universitário, explicou como ingressar. Luciene, que também é artesã – produz bonecas de palha , decidiu tentar. Optou pelo curso presencial, apesar das dificuldades. O transporte disponibilizado pela Prefeitura passava no “asfalto”, distante cerca de seis quilômetros. Na maioria das vezes, contava com a ajuda dos irmãos, especialmente Luciano, que a levavam até a “ponte”, ponto de parada do veículo. No retorno, porém, por algumas vezes, precisou fazer o trajeto a pé, no escuro.

Uma conquista coletiva

“A participação de minha família durante a faculdade foi perfeita. Um dos motivos de ter conseguido. Sempre me levaram no asfalto e me buscavam. Algumas vezes, não foi possível devido ao cansaço. Hora nenhuma me abandonaram. Sou muito grata ao meu filho João também. Apesar de ele não ter tido acesso a esse mundo na infância, ele é um jovem conectado e me ajudou muito.” Luciene também é mãe de José que, assim como o irmão, contribuía com o que estava ao seu alcance.  O apoio veio também dos pais. “Minha mãe nunca deixou eu sair sem comida. Às vezes, arrumava em uma caneca para eu comer no caminho, pois se eu parasse para comer, eu perdia o ônibus”. E complementa: “Meu diploma não é só meu, tem um monte de gente que me ajudou. É um pouquinho de cada um.”

Outro desafio foi lidar com o desconhecido. “Eu sou uma das primeiras do quilombo a cursar uma faculdade. E não tinha nenhuma amiga que eu pudesse tirar dúvidas. E não ter internet me atrapalhava muito”. Com a pandemia e a migração para o formato remoto, conseguiu instalar internet em casa, mas ainda precisou aprender a utilizar ferramentas digitais. “Até conseguir me adaptar... Esse mundo tecnológico para mim era um pouco difícil e distante, porque não fui uma jovem com computador em casa.” Antes mesmo de ingressar no curso, tomou uma decisão simbólica: saiu para comprar um fogão e voltou com um computador. “Eu tinha acesso a enxadas e ferramentas, mas precisei trocar por outra: um computador, que me abriu o mundo.”

A graduação deveria ter sido concluída em 2023, mas perdas familiares interromperam o percurso. Em poucos meses, faleceram a mãe, a comadre e um tio muito próximo. O líder da comunidade também havia falecido no ano anterior. “Eu diria que eram o meu alicerce. Ver todos indo embora naquele período foi muito difícil para mim”. A situação afetou seu rendimento e sua motivação, levando a trancar o curso no UNIFAA. Mas uma conversa com o Presidente da FAA, José Rogério Neto, durante uma capacitação realizada no próprio centro universitário, abriu caminhos para a conclusão. Pouco depois, Luciene estava novamente matriculada.

“Luciene entra para a história como a primeira pessoa quilombola do Quilombo São José da Serra a se formar professora. Sua conquista é motivo de orgulho e representa a força transformadora da educação, capaz de abrir caminhos e inspirar novas gerações. Tive a alegria de participar de um pequeno trecho dessa caminhada, mas o mérito é todo dela, da sua coragem, determinação e perseverança. Professora Luciene, muito sucesso em sua trajetória. Tenho convicção de que você irá inspirar e transformar muitas vidas”, afirma José Rogério.

Na visão do Reitor do Centro Universitário UNIFAA, Marcio Martins da Costa, a “conquista de Luciene representa, para o UNIFAA, a materialização de uma das missões mais nobres da educação: ampliar horizontes, promover oportunidades e transformar realidades. Sua trajetória expressa não apenas uma vitória individual, mas também a força de sua família e a representatividade histórica do Quilombo São José da Serra, motivo de orgulho e reconhecimento para toda a nossa instituição.” Acrescentando, disse que “não é apenas uma vida que se transforma: é uma história inteira que passa a ser contada por quem tem o direito, a memória e a legitimidade para contá-la. E é ainda mais bonito saber que Luciene deseja voltar para ensinar a cultura quilombola às novas gerações.” 

 “O curso de Pedagogia celebra, com imenso orgulho e emoção, a trajetória de Luciene, moradora do Quilombo São José da Serra, o mais antigo quilombo do estado do Rio de Janeiro, e primeira quilombola licenciada em Pedagogia de Valença”, destaca a Coordenadora das Licenciaturas do Centro Universitário UNIFAA, Mônica Teixeira, acrescentando que ela “nos mostra que a educação abre caminhos, fortalece identidades e constrói futuros possíveis”. 

Abrindo caminhos

“Nesta semana, quando eu abrir e vi ‘curso concluído’, eu explodi de alegria. Enviei mensagem agradecendo às principais pessoas que me ajudaram nesta caminhada. Passou um filme, mas nada que fizesse arrepender, nada que tirasse o brilho dessa conclusão.” E completa: “vai abrir portas não só para mim, mas para o quilombo também. Porque, no momento que concluo esse curso, eu deixo claro para qualquer jovem ou criança que sonhar é possível.” Hoje, Luciene pensa em ensinar a cultura quilombola na escola da comunidade. Para ela, “essa história não está escrita nos livros. Se a gente não começar a contar até mesmo como parte de um currículo escolar, não sabemos o que será”. Seu objetivo é garantir que as novas gerações conheçam a origem, a cultura e a importância histórica do Quilombo São José da Serra.

 

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