‘É como se uma parte de mim voltasse para casa’, afirma palestrante da 58ª Aula Magna de Medicina

‘É como se uma parte de mim voltasse para casa’, afirma palestrante da 58ª Aula Magna de Medicina

‘É como se uma parte de mim voltasse para casa’, afirma palestrante da 58ª Aula Magna de Medicina

Publicado em: 28/08/2026

Na segunda-feira, 31 de agosto, o Centro Universitário UNIFAA realiza a 58ª Aula Magna do curso de Medicina. Uma data que, a partir de 2026, será oficial para a realização desse evento, pois, em 31 de agosto de 1968, foi ministrada a aula inaugural da então Faculdade de Medicina de Valença. O convidado será um egresso da instituição: Dr. Rossi Murilo da Silva, egresso da 13ª turma de Medicina (1985) e atual Diretor-Geral do Instituto Estadual de Cardiologia Aloysio de Castro (IECAC). A partir de setembro, Dr. Rossi passará a ser, novamente, colaborador da FAA. Ficará responsável por coordenador o cenário de prática para estudantes do UNIFAA no próprio IECAC. Confira, a seguir, em entrevista especial com o palestrante. 

Como foi receber o convite para retornar ao Centro Universitário de Valença para ministrar a 58ª Aula Magna do curso de Medicina?

É como se uma parte de mim voltasse para casa. Valença, a instituição e tudo o que vivi aqui carregam um peso afetivo que nenhum tempo apaga. Quando o convite chegou, senti uma emoção que não consigo traduzir em palavras — era o reconhecimento de um caminho que comecei a trilhar há tantos anos. E o reconhecimento tem essa força curiosa: ele nos faz parar, olhar para trás e perceber que cada escolha, cada esforço e cada passo dado produziu frutos. Mais do que uma honra, essa Aula Magna é uma oportunidade de compartilhar essa jornada e, ao mesmo tempo, renovar em mim a chama que me move até hoje.

Sua relação com a instituição não terminou com a colação de grau, certo?

Não, e talvez ela tenha começado antes mesmo de eu sonhar em ser médico. Minha infância foi em Valença, e eu me lembro vividamente de ver os estudantes de Medicina passando perto da minha casa. Naquele menino, aquilo acendia um desejo silencioso: um dia, eu queria estar ali. Durante a graduação, mergulhei de cabeça. Fui monitor de Anatomia e construí uma relação muito próxima com o professor Mário Fortes, o Zio Domenico e Luís Roberto. Depois de formado, continuei ligado à faculdade na disciplina de Técnica Cirúrgica e Cirurgia Experimental, ao lado de mestres como Ronald Nir Allonso, Manoel Mozart, Zé Augusto e Carlos Augusto. Ou seja: minha história com essa instituição nunca coube entre a matrícula e o diploma. É um vínculo acadêmico, profissional e, sobretudo, afetivo — que permanece vivo até hoje.

O que o senhor pretende apresentar nesse encontro com os estudantes de Medicina?

Mais do que contar a minha história, quero que eles enxerguem a própria história através da minha. Eu já estive onde eles estão agora. Fui um estudante cheio de sonhos, dúvidas, expectativas e projetos, imaginando quais degraus conseguiria alcançar. Sei o que é olhar para o futuro sem saber ao certo o que ele reserva. Quero mostrar que uma carreira se constrói passo a passo — com dificuldades, escolhas, acertos e erros. Se a minha experiência puder ajudar um único estudante a enxergar possibilidades para o próprio futuro e a se sentir estimulado a perseguir seus objetivos, acredito que essa Aula Magna já terá cumprido sua missão.

Qual foi o momento mais marcante da sua trajetória acadêmica?

É difícil escolher apenas um momento, mas, se eu tivesse que apontar uma experiência que moldou quem eu sou, seriam as monitorias. Foi ali que descobri algo transformador: quando precisamos transmitir o que aprendemos a outra pessoa, é nesse instante que consolidamos o nosso próprio conhecimento. A monitoria me deu profundidade, mas também me deu algo ainda mais valioso — responsabilidade, disciplina e uma proximidade rara com professores e colegas. Mais do que um capítulo da minha formação, foi ali que comecei a entender o ensino e a Medicina de uma forma nova. Foi ali que, sem saber, eu começava a me tornar o médico e o professor que sou.

E com seus amigos e colegas de turma? Qual momento o senhor recorda com mais carinho?

Essa é, talvez, a pergunta mais difícil de todas — porque não existe um único momento. A formação médica é feita de estudo e responsabilidade, mas também de vida. Foram aulas, festas, churrascos, situações engraçadas, professores inesquecíveis, momentos de tensão e até situações dramáticas. Tudo isso se misturava no mesmo período, no mesmo grupo, na mesma turma. Quando olho para trás, percebo que não é uma lembrança que representa aqueles anos — é o conjunto. São as amizades, a convivência e as histórias que construímos juntos. E essas lembranças, ao contrário de muitas coisas na vida, não envelhecem. Elas permanecem.

Como foi a sua carreira? Houve muitos desafios?

Foram muitos, e cada um deles me ensinou algo. Eu saí de uma faculdade do interior e cheguei ao Rio de Janeiro encontrando um mundo completamente diferente: uma cidade imensa, um ambiente profissional extremamente competitivo e uma exigência que parecia não ter fim. Escolhi a área cirúrgica. Fiz Cirurgia Geral no Hospital Naval Marcílio Dias e, depois, Cirurgia Vascular no Hospital da Lagoa — que se tornaria o verdadeiro berço da minha vida profissional. Ali passei por todas as etapas: internato, residência, médico do staff, chefe de serviço e, por fim, diretor do hospital. Olhando para trás, vejo que cada etapa trouxe um desafio novo. E talvez essa seja a grande lição: os desafios não desaparecem à medida que avançamos — eles apenas mudam. E cada um que superamos nos prepara para assumir responsabilidades maiores.

Como o senhor vê a Medicina praticada hoje em comparação com o período em que se formou?

A Medicina mudou profundamente — inclusive na forma de formar o médico. Na minha época, o ensino seguia um modelo mais clássico, com disciplinas bem delimitadas: Anatomia, Fisiologia, Farmacologia, Semiologia. Hoje, a formação é muito mais integrada, com diretrizes curriculares diferentes e sistemas modulares que reúnem conhecimentos em torno de temas e sistemas. Não vou afirmar que um modelo é melhor que o outro — cada um pertence a uma realidade e a um momento da educação médica. Mas há algo que não mudou e, acredito, nunca mudará: a Medicina continua exigindo estudo, dedicação, responsabilidade, ética e uma relação profundamente humana com o paciente. A tecnologia avança, o conhecimento se expande e o ensino se transforma. Os fundamentos, esses permanecem.

Como o senhor imagina que está hoje a faculdade onde se formou?

Apesar de estar fisicamente afastado de Valença há alguns anos, nunca deixei de acompanhar a evolução da faculdade. E sempre recebi com imenso orgulho as notícias de suas conquistas e avanços. Inclusive, costumo brincar com os anestesistas e com a minha equipe cirúrgica dizendo que a Faculdade de Medicina de Valença é melhor que Harvard, melhor que Johns Hopkins. É uma brincadeira, claro — mas ela traduz um sentimento verdadeiro: tenho um orgulho enorme da instituição onde me formei. Por isso, retornar e encontrar uma faculdade que continuou crescendo e formando novas gerações de médicos é, para mim, motivo de profunda satisfação.

Que mensagem o senhor gostaria de deixar aos estudantes de Medicina?

Antes de tudo: não desistam dos seus objetivos. A Medicina é uma profissão difícil. A formação é exigente e a vida profissional apresenta inúmeros desafios. Mas são justamente esses desafios que nos fortalecem — cada dificuldade superada nos torna mais preparados para a próxima etapa. E quero deixar uma mensagem que considero essencial: ninguém é um médico menor por ter vindo de uma faculdade do interior ou de uma instituição privada. A origem não determina o tamanho da carreira que vocês poderão construir. O que fará diferença é o que cada um fizer com as oportunidades que receber: a dedicação, o estudo, a ética, a disciplina, a capacidade de aprender continuamente e, principalmente, a determinação de perseguir aquilo em que acredita. Eu também fui um aluno sentado em uma faculdade no interior, olhando para o futuro e imaginando onde a Medicina poderia me levar. Por isso, quero que esses estudantes entendam: o lugar onde vocês estão hoje não limita o lugar aonde poderão chegar amanhã.

Como ou a quem você atribui a sua trajetória profissional?

Minha família: meu porto seguro. Minha família: onde tudo começa. E para onde sempre voltamos. Minha base, meu equilíbrio, minha força nos momentos difíceis e minha maior conquista. Nenhuma conquista profissional teria o mesmo significado se eu não tivesse com quem compartilhá-la. Durante todos esses anos, foram muitas horas dentro de hospitais, centros cirúrgicos, salas de aula e funções de gestão. E quem escolhe a Medicina sabe que, muitas vezes, a família também acaba fazendo parte dessas escolhas e desses sacrifícios. Se consegui chegar até aqui, foi porque sempre tive uma família que me deu sustentação, compreensão e, principalmente, um lugar para onde voltar. No final, podemos acumular títulos, cargos e realizações, mas a família continua sendo a nossa maior conquista.”

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